IPHANAQ participa da 35ª Caminhada da Seca em Senador Pompeu

IMG_1238Neste domingo, dia 12 de novembro, a Ong. Iphanaq representada pelo seu presidente Elistênio Alves e seus integrantes Ailton Brasil e Neto Camorim, estiveram mais uma vez em Senador Pompeu participando da 35ª caminhada da seca, em homenagem as vítimas que morreram no campo de concentração da Barragem do Patu no período da seca de 1932.

IMG_1232Todo ano às 5 da manhã uma multidão sai da Igreja Matriz de Senador Pompeu, em direção ao cemitério da Barragem, onde acontece uma celebração eucarística em memória aos sertanejos que morreram de fome, sede, disenteria, tifo e sarampo. Situação essa mais agravada em virtude da grande seca que assolava todo o semiárido nordestino naquele ano.

IMG_1214Por causa da seca de 1932, milhares de trabalhadores rurais e suas famílias, retirantes da seca vieram para Senador Pompeu, provenientes de todos os estados nordestinos em busca de trabalho e comida. A chegarem ao local para não saquearem as cidades, são mandados pelo governo para o canteiro de obras da barragem e ficam presos a uma vida verdadeiramente subhumana. Nascia assim em o primeiro grande centro de concentração de seres humanos no sertão central.

IMG_1172Em respeito a essa história no ano de 1982 é iniciada a Caminha ao Santuário da Seca- Cemitério da Barragem, uma iniciativa do vigário da cidade na época, Pe. Albino Donati, no qual denominou o local de “Santuário da Seca”. A idéia dessa caminhada surgiu baseada no seguinte pressuposto. Como no dia 02 de novembro reverenciamos os nossos falecidos, o sacerdote então, escolheu o segundo domingo de novembro para reverenciar aqueles nossos irmãos anônimos que passaram a ser homenageados e hoje são cada vez mais lembrados nesta caminhada que tem aumentado a cada ano, que já está se transformando numa tradição de religiosidade popular reunindo milhares de romeiros todo ano se encontra em Senador Pompeu para prestarem homenagens às almas da Barragem do Patu.

IMG_1169É importante destacar durante todo esse tempo de caminhada da seca, o papel do CDDH-AC (Centro de Defesa dos direitos Humanos Antonio Conselheiro) de Senador Pompeu em defesa dos pequenos proprietários de terras localizados no entorno da barragem que eram ameaçados de perderem suas terras e depois de muita luta em 1987 é realizada uma grande manifestação em favor dessas comunidades que ganharam as causas, fazendo o DNOCS e a empresa EIT, responsável pela obras de conclusão da Barragem, se viram obrigadas a atender as reivindicações dos moradores dessas comunidades que estavam isoladas pelas águas do Patu.

IMG_1168Segundo Neto Camorim que esteve participando da 35ª Caminhada da Seca ao Cemitério da Barragem, pode perceber o quanto essa história continua viva na memória do povo. A cada ano que tenho participado observo que cresce essa caminhada de fé em homenagem a esses pobres sertanejos que foram concentrados e acabaram morrendo de fome, sede e muitas doenças, sendo de acordo com a fé e a religiosidade popular, almas milagrosas. Muitas pessoas pagam promessas diante das graças alcançadas com as almas dos que morreram na seca de 1932. É costume durante a caminhada ser distribuído gratuitamente água a todos. Fato curioso e cheio de mística e fé são quando as pessoas chegam ao cemitério da barragem. Muitos derramam suas águas nos túmulos e acendem velas em homenagens as vítimas desse flagelo.

IMG_1157Isso só reforça a força da religiosidade popular na vida do sertanejo que através de sua fé acredita e renova a esperança a cada dia, mesmo depois de vários anos de seca no sertão, que Deus mandará chuva trazendo assim água e bonança. Tudo isso acredito que aconteceu na barragem do Patu, tem de certo maneira, relação com outros acontecimentos que também foram massacrados em nossa história, como Canudos liderado por Antonio Conselheiro, Caldeirão do Beato Zé Lourenço, Pau de Colher, as casas de caridade do Pe. Ibiapina, Pe. Cícero e tantos outros são importantes na vida e na luta dos sertanejos por terra, pão e dignidade em nosso sertão. Portanto, essas histórias e memórias do povo sertanejo não podem morrer. Fico feliz que essa Caminhada da Seca a cada ano tem desempenhado esse papel. Assim ressaltou.

Neto Camorim – Integrante da Ong. Iphanaq.
Fotos: Elistênio Alves