Geraldo Ferreira apresenta sua trajetória de sanfoneiro no 75º Papo Cultural

10“Desde os 14 anos que aprendi a tocar sanfona. Já parei e depois voltei a tocar, a sanfona está na minha alma”. Foi com essa frase que o sanfoneiro Geraldo Ferreira iniciou sua participação na 75ª edição do Papo Cultural, realizado nesta sexta, dia 29 de setembro, na casa do Conselheiro.

Nascido em 1951 no povoado de Berilândia, hoje distrito de Quixeramobim, Geraldo Ferreira desde a adolescência teve contato com o mundo da sanfona no seu sertão. Mesmo exercendo a atividade de agricultor, sempre foi um jovem curioso e muito interessado em aprender a tocar. Destacou na sua fala que para aprender os forrós ouvia rádio na casa de um parente, o Heitor Ferreira. Só ele tinha rádio nas proximidades de sua casa na época. Eram tempos difíceis pra tudo no sertão. E eu pensava assim. Quero ser sanfoneiro, mas não posso deixar de trabalhar na roça pra sustentar a família. Não dava pra viver só da sanfona naquela época. Vale lembrar que sempre fui muito tímido, só me soltava mais, quando bebia umas pingas, ressaltou.

Nas décadas de 1960 e 70 foi aperfeiçoando seus conhecimentos na arte da sanfona. Lembrou com muita alegria a primeira música que aprendeu a tocar. Era um forró solado do Nôca do Acordeom. No início só solava, não cantava. A timidez não deixava. Mesmo assim durante esse tempo ficou tocando alguns forrós quando era convidado na sua região.

Encontro com João Bandeira
No inicio dos anos 1980, João Bandeira, sanfoneiro de Limoeiro do Norte, região do Jaguaribe, estava despontando nas paradas de sucesso e veio tocar uma festa na Ferrolândia, localidade que fica no município de Banabuiú, na divisa com o município de Quixeramobim, não muito distante de Berilândia. Quando João Bandeira vinha tocar na região naquela época, os carros saiam lotados das comunidades vizinhas para a festa no intuito de dançar um forró autêntico ou apenas apreciar um bom sanfoneiro.

Quando soube que João Bandeira viria tocar em Ferrolândia, se amimou pra ir conhecer o já famoso sanfoneiro, mas não tinha dinheiro, nem para pagar a passagem no carro que iria levar o pessoal, imagine entrar na festa. Então resolveu ir pescar com um amigo. Foi nesse percurso da pescaria que encontrou seu primo João Vitorino, hoje já falecido, que lhe indagou. Geraldo você vai à festa com o João Bandeira? Respondi: Não, estou sem dinheiro. E foi ai que meu primo disse: Rapaz você vai sim, não se preocupe que levarei você de graça no meu carro. Esse meu primo tinha um caminhão que levava as pessoas pras festas cobrando passagem, destacou.

De acordo com Geraldo Ferreira ao chegar à festa no meio daquela multidão, fiquei com alguns amigos bebendo umas pingas, e quando teve um intervalo, pois naquela época não tinhas várias bandas tocando numa festa como acontece hoje, era só um sanfoneiro. João Bandeira comentou que estava muito cansado, pois havia tocado no dia anterior, foi ai que Raimundinho dono da festa, disse que conhecia um sanfoneiro que estava na festa e poderia mostrar seu talento, caso ele permitisse. Subi ao palco com muita timidez, confesso, e mostrei meu trabalho. Quando terminei de tocar passei a sanfona pro João e voltei ao bar onde estavam meus amigos.

No final da festa, já pegando o carro pra ir embora, pra minha surpresa Raimundinho veio me chamar e disse: João Bandeira queria falar comigo. Fui ao encontro dele, e logo me fez uma proposta para que eu fosse com ele pra Limoeiro, e ficar tocando com ele. Foi ai que pensei: Eu vou sim, essa pode ser a grande chance de divulgar meu trabalho e ganhar algum dinheiro a mais. Naquela época, o trabalho que tinha era as frentes de serviços no qual a gente era alistada nos períodos de seca. Naquele dia tomei essa decisão e só mandei avisar pra família que tinha seguido com João Bandeira. Confesso que as canas que tinha bebido me deram mais coragem de tomar essa decisão tão repentina, ressaltou aos risos. A partir de então, passou a viajar com o grupo e quando recebeu o primeiro dinheiro (cinquenta mil cruzeiros), moeda da época, veio em casa, fez a feira e ainda deixou dinheiro com a família. Desse momento em diante as coisa foram melhorando e seu trabalho de sanfoneiro mais conhecido. Sou muito grato ao meu primo João Vitorino por ter me levado no seu carro naquela festa. Sem essa ação dele, a minha vida não teria seguido o caminho que tomou para a realização de tocar sanfona fora no meu lugar e mostrar meu trabalho. Que Deus a tenha no reino do céu.

A partir dessa ação de meu primo foram 10 anos tocando com João Bandeira e até hoje preserva essa amizade. Sempre ele liga pra mim, frisou. Depois que saio do João Bandeira foi tocar uma temporada com Redondo e Banda Som do Norte e Rita de Cássia, depois esteve por um longo período na Banda Forró Maior e chegou a ter minha própria banda a GR Som, montada com o apoio de seu amigo João Bandeira, que nunca lhe abandonou.

Retorno a Berilândia
Depois desse longo período tocando fora de sua terra, Geraldo Ferreira resolveu voltar pro seu lugar, a Berilândia. A idéia era montar uma banda de forró, no qual chegou a se concretizar com o nome “Os primos do forró”. Mas logo percebeu que não dava pra ficar por lá. Os convites pra tocar eram poucos e então resolveu parar de tocar por um tempo. Depois resolveu vim morar na cidade de Quixeramobim e voltou a tocar no forró do Quixeramobim Clube, onde permanece até hoje. Com ele mesmo diz, a sanfona está na alma e não consegue parar.
Geraldo Ferreira também comentou durante o papo, da sua preocupação sobre os destinos do forró autêntico ou pé de serra como alguns falam em Quixeramobim. As pessoas gostam muito desse tipo de forró, mas infelizmente, quem toca esse forró de raiz, como sempre fala Nonô, Tenilson, Luis Paulo, Dedé Paulo e demais colegas, quando a gente morrer, quem vão continuar tocando esse estilo? Não vejo incentivo aos jovens por parte dos órgãos públicos para que esses meninos e meninas aprendam a tocar sanfona. Lamento demais por isso.

Nós sanfoneiros aqui no município, já passamos dos sessenta anos a maioria deles, e não vejo ninguém novo surgindo pra continuar o nosso forró. Tenho observado também, que mesmo agora sendo mais fácil aprender a tocar sanfona, pois a tecnologia tem facilitado mais, percebo que muitos desses jovens não têm a paciência e concentração necessária pra aprender. Destacou antes de concluir sua participação no evento.

Após a apresentação teve uma roda de conversa onde Geraldo Ferreira respondeu perguntas do público presente ao evento, intercalando alguns momentos com o som de sua sanfona. Momento muito prazeroso cultural e musicalmente.

Pra finalizar o Coordenador do projeto, Neto Camorim, fez os agradecimentos a Geraldo Ferreira por ter aceitado o convite para participar do papo cultural e compartilhar sua história de vida e trajetória artística enquanto sanfoneiro. E por tal motivo a Ong. Iphanaq lhe entregou uma menção honrosa pela sua presença no 75° Papo Cultural.
Neto Camorim – Coordenador do Papo Cultural
Fotos: Rivelino Rodrigues e Elistênio Alves.